
| Não há certeza sem a dúvida, e ao duvidar, temos ao menos a certeza de que duvidamos. Todavia, duvidar não implica necessariamente em um princípio de não confiança. A dúvida só é possível, quando somos privados de certezas, sobretudo pela ausência na clareza dos fatos. Dizer apenas aquilo que houve, privando sobretudo do quando e talvez ainda do onde, não transparece fatos e alimenta hipóteses. Na tentativa de evitar situações piores, ou mesmo de não fazer alguém infeliz, tendemos a não explicitar detalhes, que sob nosso modo, não teriam relevância. As particularidades suprimidas, na maioria das vezes, tornam-se possibilidades incríveis para caminhos duvidosos. Apenas uma dúvida não é obrigatoriamente desconfiança, mas ao ser lançada aos pensamentos, as lacunas nos deixadas por diversas vezes somam-se, completam-se. Essa fusão é voraz em produzir incoerências, e nesse estágio, já não temos mais apenas a dúvida incial. Fabricamos certezas, inda que acerca de fatos duvidosos, e passamos a desconfiar. A dinâmica do pensamento humano talvez seja muito cruel (e pode ser agravada por distúrbios físicos). Não há ser humano que não se permita pensar. E assim, temos a certeza de que nossas tentativas em esclarecer qualquer fato, por mais que pareçam claras aos nossos olhos, e por mais inocentes que nos imaginamos ser, embebe o outro numa dose qualquer de dúvida, que pode virar ou não desconfiança. E isso pode ou não depender de nós... |
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